HISTÓRIA:

Esta sopa leva-me a recordações da minha juventude!... Trabalhava eu numa mercearia que já não existe, como na realidade todas as que na época existiam em Valença.

Fazia-se normalmente com os rabos de bacalhau que as mercearias de Valença vendiam já demolhado. Cortavam-se às postas, pesavam-se e na parte da pele com um lápis próprio, de tinta violeta que resistia à água, escrevia-se-lhe o preço que custava.

Os rabos ficavam sempre para o fim e como nem no peso nem nas contas se consideravam, era sempre lucro, o que permitia muitas vezes “ter caridade” -dizia o nosso patrão - e vendiam-se cinco rabos e recebiam-se três, embora tivessem preço marcado, era bom para quem comprava e para o patrão.

Dizia quem os comprava: -“É para fazer um arrozinho ou uma sopinha!...”

Eu devia ter doze ou treze anos e em minha casa arroz de bacalhau comia-se algumas vezes, mas sopa de bacalhau nunca a tinha comido, comentei várias vezes com minha mãe, até que um dia ela me disse: “-ó rapaz, tu andas aguado ou quê? Eu não sei como se faz, mas pergunta, que eu faço!... ”.

Um dia enchi-me de coragem e uma senhora que normalmente aproveitava esta promoção, ao ser atendida por mim, perguntei: -“Então é para arroz ou sopa?”, ao que ela respondeu: -“É para as duas coisas meu filho”. Eu: -“E como é que se faz essa sopa? É que minha mãe quer fazê-la, mas não sabe”. Ela retorquiu: -“Deixa que para a próxima vez, trago-ta escrita, assim levas o recado direitinho porque se te explico não vais levar o recado direito à tua mãe”. Até que passados uns dias a senhora voltou à loja e deu-me uma folha dobradinha e disse:-“ Aqui tens a receita para a tua mãe”.  E deu-ma com uma recomendação: -“Diz à tua mãe que o pão são os restos da sêmea, que não a sacrifique fresca e se não tiver azeite que ponha unto”.

 

PREPARAÇÃO:

Colocamos numa panela as batatas, a cebola e o tomate, tudo cortado em dados, os dentes de alho mascados e o ramo da salsa, colocamos os rabos de bacalhau também na panela e regamos com azeite ou colocamos um pouco de unto, juntamos água necessária para que tudo coza e que fique suficiente água para a sopa. Levamos ao fogo, quando cozido, retiramos os rabos de bacalhau e reservamos. Retificamos a sopa de sal e deixamos que ferva mais um pouco.

 Preparamos os pratos com um fundo de duas fatias de pão (sêmea) e colocamos o bacalhau aos bocadas que preparamos previamente. Temperamos com um pouco de pimenta o bacalhau.  

Adicionámos duas a três conchas de sopa bem quente por cima do bacalhau, deitamos umas gotas de azeite ou unto derretido, salpicamos com endro fresco ou seco, conforme a época. Comer, a soprar!...

“QUEM NÃO TEM PALADAR NÃO TEM CARÁCTER”.

- AQUILINO RIBEIRO

 

Ingredients

Directions

A nossa “Sopa de Bacalhau”