HISTÓRIA:

Em 1977, quando tomei a concessão da Estalagem Monte do Faro, sendo uma das minhas preocupações apresentar um cardápio atrativo, comecei a fazer um levantamento gastronómico do concelho de Valença.

Rapidamente passei à prática alguns pratos desse receituário: como cabrito assado à Sanfins, o bacalhau à Rosa do Adro, os peixes do rio Minho, a caça que muito celebrizou o restaurante, e determinada doçaria popular ou de origem conventual.                                      

Foi então que, um dia, numa conversa com um diretor que estava na Pousada de S. Teotónio, de origem valenciana, Victor Martins, tínhamos a mesma preocupação de recuperar património gastronómico, e assim nos surgiu a ideia de ir falar com as “meninas Ibéricas” a fim de as convencer a confecionar a pastelaria para a Pousada, o que elas aceitaram sem nenhum problema, começando de imediato.

Rapidamente ganhei a confiança das “meninas Ibéricas” e, um dia, falei-lhes que ainda me recordava dos Borrachinhos de Valença que elas faziam para as festas onde participavam na Assembleia Valenciana; foi aí que me contaram toda a história dos Borrachinhos de Valença; a receita tinha sido dada pelas antigas criadas do Barão da Urgeira que, por sua vez, a tinham conseguido do Convento que existiu junto à Igreja de Santo Estêvão onde, na época de Natal e da Páscoa era tradição ter sempre um pote junto à lareira com os Borrachinhos de Valença, que se ofereciam a quem com Deus viesse!...

 O convento foi extinto em Julho de 1769 e as irmãs regressaram a Braga. Mas ficou a receita desta como de outras iguarias que tenho vindo a recuperar e divulgar, para que este valioso legado não se perca

Na mesma altura convidaram-me para ir fazer um programa de televisão sobre as iguarias que se serviam em Valença no Natal. Como frequentava a casa das “meninas Ibéricas” comentei-lhes sobre esse convite, escusado será dizer que tudo que levei a esse programa foi cozinhado com a ajuda delas. Então aí aprendi a fazer muitas das iguarias natalícias, cozinhamos até um peru recheado, que ainda hoje faz parte do receituário de minha casa; ensinaram-me também a fazer os Borrachinhos de Valença e um bolo de tangerina que nunca cheguei a pôr em prática. Passados uns anos ofereceram-me uns apontamentos de receitas de pastelaria escrito á mão que datam de meados do Século XVIIII, que, ainda hoje guardo e de onde tenho resgatado muitas receitas.

 

Curiosamente em 1982, Maria de Lurdes Modesto, conhecida na época pelos seus programas de culinária na televisão e autora de vários livros sobre este tema, com a colaboração da Editora Verbo edita a “Cozinha Tradicional Portuguesa”, do qual foram vendidas, pelo menos, seis edições.

Nesse livro refere-se aos Borrachinhos de Valença e até dá a receita, embora com um erro fatal para a confeção desta iguaria, quando diz: “bate-se muito bem o pão ralado”; ora, pão ralado é aquele que se compra para fazer panados e, com este tipo de pão, é totalmente impossível a confeção desta iguaria; logicamente, existe aqui um lapso linguístico, já que o termo que teria de ser aplicado seria o de “pão reladinho”, termo muito Minhoto que consiste em desfazer o pão com os dedos até ficar “reladinho”.

Está assim esclarecido o equívoco que rodeia algo que faz parte do nosso património gastronómico.

 

PREPARAÇÃO BORRACHINHOS:

Tiram-se as côdeas ao pão e desfaz-se muito bem com as mãos até ficar bem reladinho: (termo muito minhoto). Deitam-se os ovos num recipiente e batem-se ligeiramente. Juntam-se todos os ingredientes e amassa-se tudo muito bem com as mãos (se o pão ainda estiver seco, juntar mais ovos e voltar a amassar). Fritar em óleo abundante, dando à massa a forma de bolos de bacalhau com duas colheres e quando fritos tiram-se diretamente para a calda.

 

PREPARAÇÃO CALDA:

Num tacho de fundo grosso levamos a lume brando todos os ingredientes recomendados para a calda, deixamos reduzir, até ficar com consistência de xarope.

 

 

Ingredientes para os borrachinhos:
Ingredientes para a calda:

Ingredients

Ingredientes para os borrachinhos:
Ingredientes para a calda:

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Borrachinhos de Valença