HISTÓRIA:

URGEIRA RECUPERA UMA VELHA TRADIÇÃO!... A “QUEIMA DO JUDAS”

 Uma velha tradição foi recuperada. A comissão de festas da Senhora da Saúde da Urgeira é a responsável por esse feito, anunciado pelo troar de um grupo de Zés Pereiras que, com grande entusiasmo batem as peles dos seus grandes bombos, repercutindo em toda a fortaleza e provocando a atenção de todos os que visitaram Valença no Sábado de Aleluia.

Deixem passar!...

Pelas ruas da Cidade irrompe o cortejo!...

E, como mandava a tradição, “Judas Iscariotes” vai pendurado para a “malhação” ou “queima do Judas”. Na dianteira do desfile não faltam as pertenças penduradas no mastro, com a típica folha de bacalhau. Bem-haja à gente da Urgeira que nos devolveu esta velha tradição.

Bem nos fez recordar, aos que já cá andamos há algumas boas décadas, os tempos já passados. Muitos terão ainda na memória o “Berinha” e o “Norberto”, duas figuras carismáticas que, nos anos 50, organizavam este desfile. Era um grande acontecimento na velha vila de Valença nessa época. O “Berinha” e o “Norberto”, baixo a batuta do “Abel carteiro”, que era o artífice de toda a coreografia, organizavam de um ano para o outro este desfile. O “Berinha” tinha vaidade em ser o organizador e era ele quem tomava a dianteira a comandar o compasso. Ostentava o testamento de “Judas” nas suas mãos, que ia lendo na íntegra, com paragem nas ruas onde havia mais aglomeração de assistência. Até chegar ao largo de S. João, em frente à Câmara, lugar onde se levava a efeito a queima do traidor ”Judas Iscariotes”, que vendera Cristo por 30 dinheiros!

O “Berinha”, em voz alta e cheio de importância, rodeado por centenas de pessoas, lia pela última vez o testamento do “Judas”. De seguida, procedia-se à sua queima, acompanhado pelo rebentar de algumas bombas das que se usam no Carnaval.

Pouco depois da morte do “Norberto”, o “Berinha” vem também a falecer, em finais dos anos 50 e o “Abel carteiro” ficou sem companheiros. A tradição não teve seguidores, ficou esquecida durante várias décadas, até que, há alguns anos, um grupo de homens da comissão de festas da Senhora da Saúde, com o fim de angariar fundos para as festividades da sua Padroeira, resolveu reativar esta velha tradição.

Desde pequeno que sempre tive a mania de guardar papéis velhos, que estivessem escritos com alguma coisa que falasse daquilo que eu achava interessante!... Daí eu ter tantas receitas antigas, escritas à mão, que muitas pessoas que conheciam essa minha debilidade me foram agraciando ao longo dos anos.

Recordo um dia, e já lá vão mais de 30 anos, em que o falecido Manuel Rabeca, por quem guardo grande estima, me presenteou com um testamento dos que o “Berinha” tinha lido, no ano de 1947, onde “Judas” incluía o meu amigo Manuel Rabeca como ”herdeiro”. Guardo como um verdadeiro testamento este velho escrito que adiante se reproduz, amarelado pela pátina que o tempo lhe imprimiu.

Todos os beneficiados nomeados nesse testamento, assim como os lugares nele referidos, já não existem. Mas este testamento bem pode ser considerado um documento para a história social e cultural da antiga vila de Valença.

E esta festividade à roda da queima de “Judas”, também tinha o seu momento gastronómico, que consistia em comer umas iscas e beber uns copos. As casas de pasto de então, como o “Vilas” referenciado neste testamento, que mais tarde deu origem ao “Gorduras” da Luso Espanhola, o “Reco”, o “ Alfredo Ganadinho”, o “Pepinho” da valenciana, o “Dente de Prata” e o “Dente de Chumbo”, foram alguns dos fiéis guardiões desta tradição das “iscas de carneiro”, para o fim da “Queima do “Judas”, no Sábado de Aleluia. Disputavam-se, não só as melhores iscas, como os melhores vinhos. Grupos de homens percorriam aquelas tascas todas!... Esta prática era conhecida como as “voltas às Capelas”.    

Esta tradição das iscas de fígado de carneiro em cebolada, tinha como razão o se ter sacrificado o carneiro, para a celebração da Páscoa. Eram-lhe extraídos os fígados e daí cozinhavam-se umas iscas com “sêmea” (espécie de bola de pão de farinha de trigo em bruto), tudo regado de bom e abundante vinho verde.

 

“As tradições são enriquecedoras quando permitem que o passado inspire e anime o presente”.

 

PREPARAÇÃO:

Temperar as iscas com sal, pimenta, alho, louro e vinho branco. Numa frigideira, juntar um pouco de alho e louro. Fritar as iscas em azeite. No fim, juntar a cebola e deixar a refugar. A meio do refugado, juntar o resto do tempero e deixar que tudo refoge bem. Juntar, depois, a cebola refugada e o molho, por cima das iscas dispostas numa travessa. Podem ser servidas quentes ou em frio no meio da sêmea, em forma de sandes. Acompanhar com uma chiquita de vinho verde branco ou tinto.

 

Ingredients

Directions

Iscas de Judas